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A luz do Natal

Quinta-feira, 24.12.15

Este ano o Natal encheu a casa, iluminou-a. Tal como antes, há muitos anos. Passou de uma marcação no calendário, festa de família, para abranger todos os que cabem lá. Lá = o espaço dos afectos, que é infinito.

É assim que este Natal chegou... com as famílias de refugiados de uma guerra. Crianças sem pais também vieram. E muitos jovens com a esperança de encontrar um lugar neste lado de cá.

 

O menino nasceu, como nasce todos os anos. Vemo-lo sorrir de braços abertos. É a imagem mais surpreendente num mundo que se fechou sobre si próprio. Fronteiras geográficas e muros.

Alguns países acolheram as famílias que chegam. Que a luz do Natal continue a iluminá-los.

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:23

"Libertar o futuro"

Sábado, 20.03.10

 

Vivemos na cultura da banalização. Poderia ter escolhido "a cultura da banalidade" ou "das banalidades", que também o é, mas a verdade é que a cultura actualmente mais influente, a que vemos nas televisões, na rádio, nas revistas, a que se propaga e contamina tudo o que nos envolve, é mais do que simplesmente banal. Sim, a actual cultura vigente banaliza tudo: a vida, os afectos, os sentimentos, as emoções, o sofrimento, os acontecimentos, as pessoas. 

Ao dessacralizar tudo, ao retirar o seu significado único, irrepetível, profundo, coloca tudo no mesmo plano, e esse plano é o da indiferença.

 

É por isso que se generalizou a ideia de que os políticos são todos iguais, os partidos são todos iguais, e que não vale a pena mudar porque vai ser a mesma coisa.

Este discurso cínico da indiferença e da impotência é o mais prejudicial possível na actual situação do país.

O melhor discurso, o que liberta e mobiliza, é o da verdade. Não a verdade embrulhada em desculpabilização, com os alibis do costume. Aliás, alibis que já não pegam.

 

Esta cultura da banalização apoia-se nos jornalistas e comentadores de serviço para matraquear diariamente a versão oficial e meter tudo no mesmo saco. Da forma mais superficial possível. Sem argumentação válida. E sem verdadeiro debate de ideias, só mesmo banalidades.

Mesmo estes estudos pseudo-científicos baseados em inquéritos mais que discutíveis com amostras mínimas, sem neutralizar factores que interferem num estudo científico, sem validação fidedigna, tudo é válido para espalhar a versão que convém ao situacionismo.

 

É o mundo das sondagens pré-eleitorais, que dramatizam as expectativas e pretendem influenciar os eleitores.

Alguém duvida hoje que Paulo Rangel é o que faz tremer os socialistas?

Alguém duvida que o preferido do situacionismo desta cultura da banalização é Passos Coelho? 

 

Não se pode meter tudo no mesmo saco, deve cultivar-se a observação e a reflexão. Distanciarmo-nos do barulho que por aí vai.

Atirarem-nos com números que nem sequer são fiáveis, não nos impressiona. Já vimos como os números são facilmente manipuláveis. 

Se até mesmo os números que se aproximam da realidade acabam por banalizar essa mesma realidade se mal interpretados e mal utilizados...

 

Por isso estou confiante: o PSD ainda tem uma grande reserva de auto-preservação e instinto de sobrevivência para não se deixar iludir. Mostrou que está vivo, como já há muito não o víamos, e é essa energia que deve manter, essa vitalidade.

O seu maior trunfo? A política de verdade, porque é de verdade que o país precisa. E depois, da mobilização de todos, porque estamos todos no mesmo barco. E teremos de colaborar, cada um na sua dimensão própria do possível e do justo.

 

Essa mobilização não surgirá por acaso, mas se souberem escolher quem melhor representa essa energia vital, essa convicção, essa alma acesa.

Aliás, no Prós e Contras mais recente, repararam como foi precisamente o médico, director do Hospital de Santa Maria, o que melhor percebeu isso?, percebeu que qualquer coisa de muito errado se está a passar. Falou em desânimo, perda de energia, e a generalizar-se. As pessoas precisam de esperança, de acreditar em qualquer coisa, de um futuro.

Sim, precisam de futuro, e sentir que estamos todos juntos a colaborar na direcção desse futuro possível.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:08

Do Tempo das Descobertas: Um Homem

Quarta-feira, 03.02.10

 

Do Circo da Lama este post sobre um homem e esta frase que registei: “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.”

 

 

" Um Homem

 

 

 

O Homem é um estrangeiro, um estranho. “Num universo subitamente privado de ilusões e de luzes” o Homem só se pode sentir estrangeiro. Mas ao contrário do exilado e do refugiado, o Homem tem de viver sem o consolo “de uma pátria perdida” e sem “a esperança de uma terra prometida”. Nem Ulisses, nem Judeu. O Homem já nasce longe de casa. E a casa nem sequer existe. Vale a pena viver esta vida? No ensaio O Mito de Sísifo, Albert Camus defendia que esta era a pergunta a que tínhamos de responder e o suicídio o único problema filosófico verdadeiramente importante. Ainda hoje há muitos que consideram que a obra de Camus apresenta o suicídio como a única saída para o Homem cercado de desespero por todos os lados. Para contrariar esta ideia basta ler o final do romance A Peste. Ou examinar com mais atenção a vida de Camus. O seu percurso foi invulgar. Nascido na Argélia, pied-noir, como eram depreciativamente chamados os franceses nascidos naquela colónia, Camus foi para a metrópole em 1941. A tuberculose impedira-o de prosseguir a carreira docente e Camus iniciou a carreira no jornalismo. Colaborou com a Resistência e foi redactor principal do jornal clandestino Combat, um dos mais importantes títulos da imprensa francesa durante a ocupação alemã. Quando ocorreu a libertação, em 1944, Camus já conquistara o seu espaço na literatura francesa. Dois anos antes publicara o romance O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, que lhe valeram a atenção da crítica e a admiração, embora com reservas, de Jean-Paul Sartre. A amizade entre os dois gigantes terminaria anos mais tarde. Em 1951, Albert Camus publicou o ensaio O Homem Revoltado. O livro continha críticas ao Marxismo e ao modelo soviético e foi demolido numa recensão publicada na revista Les Temps Modernes, dirigida por Sartre. O que era uma manifestação do profundo humanismo de Camus contra todas as formas de opressão foi entendido pela esquerda como uma traição. As trincheiras ideológicas estavam demasiado cerradas para que uma “terceira via” fosse aceite sem turbulência. Para Camus, o homem absurdo tinha de aprender a viver sem as muletas de Deus ou do Partido. A sua vida e a sua obra são um testemunho a favor da esperança contra todas as evidências. Num mundo sem sentido, cheio de dor e de desespero, o homem deve exprimir a sua revolta positiva. “É preciso que nos ajudemos uns aos outros”, diz uma das personagens de A Peste. No final do romance, há uma frase que serve de fundamento ao humanismo ateu de Camus: “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.” A 4 de Janeiro de 1959, dois anos após ter recebido o Prémio Nobel, Albert Camus morreu num acidente de viação. Tinha 46 anos. Nascera no exílio, “entre a miséria e o sol.” Como todos os homens. "

 

Por Bruno Vieira Amaral 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:02

O Menino

Terça-feira, 22.12.09

 

Vi-me inesperadamente na posição de defesa do estandarte do Menino. O Menino em fundo vermelho. O Menino a olhar para nós.

Podem dizer-me que "é uma forma de comércio", que "não precisamos que nos lembrem". A questão não está sequer aí.

 

O Natal será sempre o do Menino. Sempre. Foi assim que o vi primeiro, num pequeno suporte com palhinhas. Entre a mãe e o pai, e os animais do curral. E foi assim que o vi depois num pequenino estábulo de madeira, que o meu pai fez com ferramentas que tinha na cave. Cá fora, os Reis Magos com os presentes, os pastores, as ovelhas. Houve anos em que se montaram rochedos e caminhos com papel pardo pintado e musgo fresco. A árvore não destoava porque as árvores nunca destoam.

 

As nossas primeiras impressões são as que ficam. Uma estrela no céu a indicar o caminho, alguém que a segue sem hesitar. Não existe história mais simples nem mais complexa. A esperança é sempre a mais difícil de viver. E o Natal simboliza a esperança ainda viva em nós, uma chama que ainda não morreu. A sensibilidade para ver o milagre da vida, por exemplo. Para captar esse milagre e tudo o que significa.

 

Essa é que é verdadeiramente a dádiva do Natal, a alegria que nos envolve estranhamente, subitamente. Mesmo em fases mais tristes e solitárias, essa alegria vem sempre surpreender-nos, sempre. É isso que o Menino nos traz, a alegria de todos os inícios, é isso que nos mostra no presépio ou no estandarte em fundo vermelho.

 

Se o Natal se transformou em mais uma época de consumo? Na sua distracção, as pessoas inventariam outras formas de se alienar do essencial, de fugir de si próprias e da sua verdade. Umas, porque querem adormecer no cansaço das correrias de uma vida que não as satisfaz, outras porque já não sabem viver sem corresponder a expectativas exteriores, outras porque o movimento as leva a esquecer que estão sozinhas no final do dia.

 

E é precisamente aí que as pessoas se desviam do essencial: para perceber o momento mágico do milagre da vida é preciso estar sozinho, quieto por uns segundos, no absoluto silêncio, para ouvir o riso do Menino. É nessa cumplicidade que está o fio da nossa história toda, nesse riso do Menino, no nosso próprio riso.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:56

Do Tempo das Descobertas: O Estanque

Sexta-feira, 09.10.09

 

E a segunda Descoberta vem da Galiza:

 

 

Avelino Abilheira
" Cara amiga, caro amigo,


Nestes dias inversos em que a palavra "paz" pertence aos donos das
guerras, atrevo-me a incorrer no vosso prezado tempo com este breve
pensamento antigo sobre os alimentos perenes da vida, que são o amor, a luta, a ordem da matéria, a memória. Grande abraço!
 
 
O Estanque

Aconteceu a começos da estação migratória, durante sete noites de irrepetível alinhamento entre Vénus, Terra e Marte, nesses anos de rara esperança para o povo em que até as águas podiam voltar a falar: não existe para a História igual prazer que expulsar o opulento monarca que ocupava a tua casa.

Eu passeava na alta noite na Alameda, lembrando os seus caminhos, quando a superfície totalmente lisa do estanque começou a vibrar levemente desde o centro sob o mesmo princípio sonoro dos tambores e das membranas dos telefones infantis de lata e corda tensa. Sentei-me num banco para escutar melhor uma baixa harmonia de vogais. Apenas distingui algumas sílabas de flores antes de o vento perturbar as águas. A presença dum guarda aproximando-se convidou-me a partir, pois os tempos ainda eram menos livres que o desejo.

Voltei à noite seguinte à mesma hora. Junto da alverca circular, o Comissário instruía com gestos de vigor a um jovem pálido de olhar perdido que reconheci como habitante do outro lado da liberdade, um pobre guarda daquele ano da greve agora destinado a recolher informações, como se o acosso aos humildes doesse menos do que os golpes.

Fingindo indiferença, aproximei-me das águas pelo lado oposto, e o portento das ondas suaves repetiu-se. Mas de novo entrou um ar que rompeu a superfície e enxotou as palavras, porque com dois elementos —água e terra— traçamos os signos os humanos, mas os outros dois foram criados para apagar as escritas.

Só na terceira noite o estanque terso como um espelho para astros e aves difundiu com clareza fragmentos dum diálogo em dois timbres. Falavam papéis miúdos aliados com a substância do pão, porque nascem do mesmo germe vegetal. Então reconheci entre pausas palavras sobre flores e sangue, frases sobre poesia e persistência, sentenças da inconfundível matéria do amor. No seu banco, o pálido polícia escutava também, olhava-me em suspeita, detinha-se, registava coisas minuciosas num caderno.

Por fim, no zénite da quarta noite extremamente calma, pude reviver com prazer meses inteiros de conversas furtivas. Voltei a ver duas figuras a fiarem lentas danças de passos entre as árvores. Com a última frase singularmente clara todo o estanque tremeu como um redondo mamífero que acabasse de acolher no centro uma semente. Quando o diálogo concluiu com um prolongado nome de mulher, no branco silêncio final da sinfonia, retirei-me a descansar, tranquilo, pleno.

Nas noites seguintes a intensidade das vozes foi esmorecendo enquanto os três pontos planetários se afastavam da linha guia marcada no seu céu. Foi só no último dia do prodígio, quando quase nada se escutava, que observei como o jovem polícia já não escrevia. Se soava a voz da mulher, ele erguia a cabeça e olhava para o fundo dos salgueiros, como lembrando um abraço não vivido, o admirável rosto dessa voz, a breve visita em missão de trabalho à casa das acácias amarelas. Compadeci que o guarda fosse prisioneiro dum antigo desejo pelo qual nem sequer combatera. Pela minha parte, a ausência fizera-me entender que embora as flores irreparáveis morram, outras podem nascer no seu lugar para escreverem de novo nas janelas.


Pouco tempo depois houve um enorme massacre e uma guerra terrível. Se por desgraçada obediência eu tivesse levantado uma arma, talvez esta não fosse a nossa, mas a arma do terror. E talvez, em paradoxo, me visse obrigado a matar defronte na trincheira um infeliz converso que pálido de amor defendia a morte a liberdade dos povos e das águas para falarem quando se ordenam com justeza no infinito as três cores dos planetas.
"
 
 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:16

...

Sexta-feira, 10.07.09

 

 

Dias de sol como desertos

daqueles dos filmes

com planícies intermináveis

 

Gostaríamos de adormecer

em dias assim

à sombra de uma árvore solitária

 

O que fizeste aos teus sonhos?

Esta é a pergunta que sinto ecoar

nesses dias de sol, antes de fechar os olhos

 

O que fizeste aos teus sonhos?

Não sei, será que esperam por mim?

... será que ainda posso ousar sonhar?

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:35

...

Sexta-feira, 26.06.09

 

 

Sonhos perdidos lá para trás

sei um pouco disso

o sabor a sal que nos deixam

 

Sonhos perdidos, não desfeitos

porque no fundo

ainda esperamos encontrá-los de novo

 

Um percurso de uma vida

não é assim tão linear

dá voltas e reviravoltas

 

e um dia, sem aviso prévio

porque nunca é com aviso prévio

os sonhos perdidos surgem-nos ali

 

Claro que só os vemos

porque secretamente os esperámos

e porque são perdidos, não desfeitos

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 09:43








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